A fábrica de cimento, a ferrovia Perus–Pirapora e a greve dos Queixadas: a história que explica Perus
Para entender por que Perus é como é — bairro operário, orgulhoso, meio cidade e meio interior —, é preciso olhar para três coisas que estão no mesmo pedaço de chão: uma fábrica de cimento, uma ferrovia de bitola estreita e a greve mais longa da história do Brasil.
A fábrica: 1926
A Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus começou a produzir em 1926 e foi uma das primeiras fábricas de cimento em escala industrial do país. A escolha do lugar não foi acaso: perto havia calcário (a matéria-prima) na região de Cajamar, e passava ali a ferrovia São Paulo–Jundiaí, que levava o produto para a capital e para o interior. Em volta da fábrica cresceu a vila operária, com casas, armazém, escola e igreja — o embrião do bairro que hoje se espalha da estação até a divisa com Caieiras.
A fábrica funcionou por sessenta anos e parou em 1986. O conjunto de fornos, chaminés e galpões continua de pé, tombado como patrimônio histórico, visível de quem passa pela Linha 7 — e ainda hoje é a silhueta que identifica Perus.
A ferrovia: 1914, bitola de 60 centímetros
Antes da fábrica já existia a Estrada de Ferro Perus–Pirapora, inaugurada em 1914 com uma bitola de apenas 60 cm — um trenzinho, perto dos trens de passageiros. Ela nasceu para ligar Perus a Pirapora do Bom Jesus, mas o que a sustentou de verdade foi o calcário de Cajamar: as locomotivas a vapor traziam a pedra das pedreiras do Gato Preto até os fornos da fábrica, dia e noite, por décadas. A operação comercial terminou nos anos 1980, junto com o declínio da fábrica.
A ferrovia não morreu: o IFPPC (Instituto de Ferrovias e Preservação do Patrimônio Cultural), formado por voluntários, restaurou locomotivas e trechos de linha e faz passeios com maria-fumaça em datas divulgadas por ele, entre Perus e Cajamar. É um dos poucos lugares do Brasil em que se anda de trem a vapor em bitola de 60 cm — e um programa de fim de semana que pouca gente de São Paulo conhece.
A greve: sete anos
Em 1962 os operários da fábrica entraram em greve contra a empresa, então controlada pelo grupo de J. J. Abdalla. A greve durou sete anos, até 1969, atravessando o golpe de 1964 — a mais longa já registrada no país. Os grevistas ficaram conhecidos como "Queixadas", em referência ao porco-do-mato que enfrenta o perigo em bando, e a resistência deles, organizada com o apoio do sindicato e com a marca da não-violência, virou referência no movimento operário brasileiro. Há livros, documentários e um memorial sobre os Queixadas; parte da memória está preservada no próprio bairro.
A vala de Perus
Perus guarda também uma página dura da história do país: em 1990, no Cemitério Dom Bosco, foi encontrada uma vala clandestina com mais de mil ossadas, entre elas as de presos políticos mortos pela ditadura. A descoberta abriu um trabalho de identificação que dura até hoje e fez do bairro um lugar de memória sobre os anos de chumbo. Vale conhecer com respeito.
O que sobrou disso no Perus de hoje
O bairro ainda é operário e ainda é de trilho — só que o trilho agora é a Linha 7-Rubi, que leva a maioria dos moradores para trabalhar na capital todo dia. A fábrica virou paisagem e patrimônio; a ferrovia virou passeio; a greve virou orgulho. E aos poucos o trabalho começa a voltar para o bairro: quem empreende em Perus hoje encontra comércio de rua forte, o Paddock Coworking na Vila Perus e o Teia da prefeitura — trabalho perto de casa, como era nos tempos da fábrica, mas sem a chaminé.
Fontes e leitura: acervos do IFPPC sobre a Estrada de Ferro Perus–Pirapora; publicações sobre a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus e a greve dos Queixadas; Comissão Nacional da Verdade sobre a vala de Perus. Se você tem fotos ou lembranças da fábrica ou da ferrovia, mande para o guia.